As Irmãs Silêncio vivem há mais de cinquenta anos na floresta de Chimay, na fronteira entre a França e a Bélgica. Uma floresta virgem, a salvo do mundo dos homens, lugar onde elas puderam recriar o deserto em que Jesus viveu em exílio. Escolheram o isolamento exatamente para se aproximar mais do seu grande amor invisível. Para elas viver em grupo é desagradável e as relações humanas, o diálogo e a amizade são só coisas que impedem de entrar em comunicação total com Deus. Por vezes, o voo de um pássaro ou o grito de um animal penetra a solidão, mas nunca as palavras saídas de uma boca.
Depois de atravessar umas cinquenta pequenas vilas do nordeste francês, chegamos ao estacionamento da ermida das Irmãs Silêncio. Um homem no estilo Saruman, e bem assustador, sai da sua cabana e nos olha fixamente. Vamos até a capela onde uma irmã nos aguarda, de braços cruzados, à porta. O que elas chamam de “capela” é sua sede, situada no centro da fraternidadade. É uma casa em tijolo, inspirada nos pavillons dos anos 90 com cozinha, escritório e sala de oração.
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No momento em que entramos na casa, a madre superiora foge pelo corredor e refugia-se conosco num pequeno lugar sombreado. Só abre a boca para nos interrogar, visivelmente irritada, sobre o nosso atraso. Demos-lhe uma desculpa esfarrapada e a irmã ficou bem puta, mas com toda a sua santa bondade e seus pequenos olhos cansados nos fez perceber que somos apenas jovens desorganizados e que, no fundo, não é grave — aliás, que é até normal tendo em conta a nossa tenra idade e a folia de Paris. O resto da nossa experiência silenciosa do final de semana está, em de maneira geral, resumido abaixo.
A ducha: uma bacia, um jarro, uma torneira, a floresta.
As regras santas
“Vocês vão ficar cada um num chalé de isolamento. É proibido que você se visitem. Não podem dirigir a palavra um ao outro no recinto da fraternidade. Nós exigimos essa interdição. Todas as manhãs, deixem o seu cesto na capela e nós vamos enchê-lo com os bens necessários. Às 12h30 tocamos um sino para indicar que o cesto está pronto. Para você é o chalé Nossa Senhora da Eucaristia e, para você, Nossa Senhora do Cenáculo. Podem passar pelo caminho central para deixarem as malas, depois utilizem os caminhos exteriores para não incomodar o isolamento dos outros peregrinos.”
Cabanas de madeira
Lá fora vemos pequenos terraços que vão dar em uma floresta de bétulas. Um muro de tábuas de madeira impede o contato com o terraço dos chalés vizinhos. Dentro das cabanas as irmãs certificaram-se de não deixar mais do que o estritamente necessário: uma chaleira, uma vassoura, uma escrivaninha, uma mesa para comer e um fogão a lenha para o inverno — nada de banheiro. A água está no exterior. A única coisa com um ar sofisticado é o cantinho de reza super bem organizado, com uma Bíblia, um raminho de margaridas e pinhas decorativas repartidas em pequenas prateleiras de madeira falsa. É tão funcional que se parece com o painel de uma nave espacial.
A luz acesa no chalé
O silêncio
É neste lugar silencioso que me lembro de ter ouvido durante todo o dia um zumbido que não existe na cidade. Dá a impressão que todos os animais da floresta em volta estão rezando ou que foram levados por um sopro da morte. Não há uma única casa a menos de dez quilômetros. Não é uma calma leve que reina, mas um silêncio pesado. O peso da solidão voluntária. Não tem nada que ver com umas mini férias na casa de campo de um tio hippie.
A comida
O cesto de alimentos que todas as manhãs as irmãs deixam em frente ao nosso chalé parece-se com um daqueles pratos de comida japonesa. Há compartimentos de todos os tamanhos, no estilo tupperware. Dentro de um deles há duas fatias de queijo. Descobri mais tarde que era preciso pagar o pão e a sopa. No meu saco ainda tinha uma lata de Coca-Cola quente, mas me recusei a abri-la. Não estava certo, parecia que estava fazendo alguma coisa horrível, como atirar uma camisinha num recém-nascido. A água tinha aquele gosto característico da água para grávidas, mas mesmo assim era potável.
Na ermida, o silêncio é obrigatório 24 horas. Não temos o direito de falar com ninguém a não ser com a Madre Superiora — e só em caso de emergência.
A noite
Quando a noite cai, o silêncio transforma o chalé num caixão de 12 metros quadrados. Dá até para ouvir melhor os gritos dos animais que pressentem a minha solidão. Enquanto não dormimos, o melhor é aproveitar do bule de chá, tão sofisticado quanto o canto de reza. Uma hora e meia depois tenho calor e muita vontade de mijar por causa do terço de litro de chá que tinha bebido.
O monge ortodoxo
Durante a tarde do terceiro dia cruzamos mais uma vez com o Saruman, que nos convidou para o seu chalé, onde nos serviu cerveja preta — e manteve os copos sempre cheios. Depois nos explicou que ele está se testando através da miséria absoluta. Ao contrário do que acreditamos, todas as relações humanas, as marcas, os filhos, os amigos e a maioria das coisas divertidas da Terra desviam-nos de nós mesmos, mais do que nos definem. Na sua mente, o mundo moderno deve ser um boné Ed Hardy gigante. “Os meus amigos de Paris bebem e fodem. Contam as bebedeiras e depois dizem que não conseguem encontrar felicidade. Não a encontraram aos 20 anos e ainda menos aos 50. Nós temos um Deus de amor, mas os homens já não ouvem o seu coração, só o seu intelecto. Estão perdidos. Temos que admitir que o homem moderno é uma merda.”
Um monge que encontramos por lá. A sua barba não se compara à sua sabedoria.
O eremita de Jura
Ao voltar do passeio encontramos um peregrino. Ele usava sapatos de turista, mas, tendo em vista o seu olhar calmo, seria certamente um sacerdote em roupa esportiva. Contou-nos que se acabara de cruzar com um grupo de 25 javalis. “É verdade, os bosques são propícios a encontros fabulosos e não são raras as vezes que os tenho.” Respondemos, brincando, que preferíamos trombar com javalis do que com humanos e ele levou isso muito a sério: “É triste o que me dizem”. E depois também ele começou a falar sobre o declínio da nossa sociedade.
Os culpados
O eremita tem vários inimigos, mas em especial o político Jack Lang. “Ele declarou que a nossa ermida era ‘um lugar bem povoado de iluminados’ e, se eu encontrar com ele, dou-lhe um soco na cara porque ele ainda por cima se sente orgulhoso de ter contribuído para a cristofobia contemporânea.” Para este monge, Lang criou, nos anos 80, uma neocultura pretensiosamente fundada no conceito de liberdade. “Qual a vantagem para um homem em ir a discotecas e não para igrejas?” Isso realmente irrita o monge. “O homem sem espiritualidade é um boneco. Quando volto à civilização só vejo bonecos anônimos. Segundo eles sou um parasita porque a minha vida não é mais que rezar, mas, uh la la, como prefiro a minha à deles! Não quero saber deles.”
TEXTO POR VICTOR WATEL
FOTOGRAFIA POR MACIEK POZOGA
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