Dotado como Um Gastrópode

Essa é a parte íntima do caracol. As criaturas possuem tanto o órgão sexual masculino quanto o feminino e ambos ficam muito próximos do rosto. Para Martin, esse é ponto de partida—a maior parte do seu trabalho é focada na substância pegajosa dentro do pênis.

Martin Püschel é um ilustrador alemão que mora na Austrália e cuja contribuição para a arte consiste em um portfólio com desenhos superdetalhados de pintos e vaginas de caracóis. Segundo Martin, as câmeras não são capazes de capturar os detalhes anatômicos que ele encontra em seu microscópio. Então, em nome da Ciência, ele passa oito horas por dia, cinco dias por semana, desenhando suas obras, mostrando um nível de entusiasmo normalmente reservado para acariciar os órgãos sexuais humanos. 

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O motivo de tanta obsessão, diz ele, é que detalhar e identificar a complexidade das partes sexuais dos caracóis é a única forma que os cientistas têm para determinar as diferenças entre as espécies. Para entender melhor essa história, fomos até o seu laboratório dentro do Australian Museum, em Sidney, onde ele desenvolve esse trabalho curioso.

Imagine se você fatiar o pinto de um cara pela metade. É isso aqui, mas em um caracol. Essas pústulas dentro do penis do lado direito são o que identificam essas espécies como Torresitrachia crawfordi. As pústulas (em outras espécies chamadas de colunas) funcionam como um sistema de cadeado, que ajuda a previnir o cruzamento entre espécies—talvez como a consciência de um ser humano.

Vice: Oi Martin, como você acabou desenhando a infinitesimal genitália dos moluscos? 
Martin Püschel:
 Faço parte da equipe que identifica os diferentes tipos de caracóis da Austrália.

Espera aí, ainda existem tantos tipos assim de caracóis não identificados na Austrália, a ponto de uma equipe inteira se dedicar a eles em tempo integral?
De pouco tempo para cá encontramos 120 novas espécies só no oeste da Austrália. É responsabilidade dos cientistas descrever o que encontramos, e grande parte desse processo envolve meus desenhos.

Você desenha o caracol inteiro ou só as partes íntimas mesmo?
Normalmente só desenho os órgãos reprodutivos—a vagina, o útero e tudo mais. Às vezes desenho os rins e o coração. Caracóis não têm cérebro, mas têm coração. 

Eu sempre pensei em caracóis como algo que deixa um rastro gosmento por onde passa.
Caracóis são úteis porque eles comem as folhas que caem das árvores e a merda deles é um ótimo fertilizante. Eles trabalham para a Mãe Natureza. Fazendo o que eu faço você realmente se dá conta do quanto a natureza é extraordinária.

Mas o quão extraordinários os caracóis podem ser?
Bom, provavelmente o mais interessante é que os órgãos reprodutivos ficam do lado da cabeça. A maior parte dos caracóis têm, ao mesmo tempo, órgãos femininos e masculinos, e quando se encontram decidem quem vai ser o homem e quem vai ser a mulher. É tudo bem complexo.

Uma última questão que me perturba há algum tempo, quais são as implicações quando você pisa acidentalmente em um caracol no jardim? A concha cresce de novo?
Não. Se você esmaga a concha não tem jeito. 


Caracóis têm ereções, que se recuam para dentro do corpo quando não são aproveitadas. À esquerda, um desenho da ereção da espécie Amplirhagada montalivetensis, identificada pelo inchaço (colunas) no interior do penis. A cesta do caracol, se você está se perguntando, está embutida no sistema digestivo. O desenho acima é da espécie Xanthomelon prudhoensis. A maioria dos caracóis faz um ritual preliminar antes do acasalamento que dura entre duas e 12 horas. Os ovos chegam a produzir até 100 bebezinhos de caracóis.
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