É difícil lembrar exatamente quando eu conheci o Dash. Minha impressão é que ficamos melhores amigos logo de cara. Acho que o conheci através do Earsnot no fim dos anos 90. Naquela época ele era um grafiteiro conhecido como Sace. Ele e Earsnot fundaram a banca de grafite IRAK, e eram os maiores vândalos de Nova York. Na lista dos vândalos mais procurados da cidade, ele era o número um. Mas nunca foi pego. Ele sempre dava um jeito de escapar.
Ele era o moleque mais louco que eu já conheci, estava sempre subindo em escadas de incêndio, correndo nos telhados e grafitando tudo. Lembro que, na época em que a gente se conheceu, ele tinha acabado de grafitar a Brooklyn Bridge. Era um maluco. Subiu num vão minúsculo na parte externa da ponte e fez um “Sace” enorme.
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Dash e eu nos demos bem logo de cara por causa da fotografia. Um dos nossos livros preferidos era o American Pictures do Jacob Holdt. A gente sempre tirava fotos. Registrávamos todas as nossas aventuras, e depois comparávamos as fotos. Ele sempre carregava uma Polaroid. As que ele tirava vinham do coração. Ele tinha uma obsessão por tirar fotos e o pior caso de DDA de todos os tempos. Sempre achei que ele fazia Polaroides por conta disso. Acho que até esperar só um minuto para revelar a foto era difícil para ele. Uma vez, ele não queria me deixar dar um teco, a não ser que fosse em cima do pau do Earsnot. Claro que eu aceitei, e ele tirou uma foto, acho que virou uma de suas fotos mais famosas.
A melhor foto que tirei dele, Dash Bombing, foi tirada no topo da cidade, na borda da cobertura de um prédio de 20 andares. Na época em que nos conhecemos, sempre íamos na High Line, ficávamos bebendo lá em cima. Ele e o Snot fizeram um grafite lá, que dá para ver até hoje da West Side Highway. Ele e o Earsnot adoravam fazer tags em mendigos. Eles pagavam 20 dólares pros mendigos deixarem os caras encherem suas roupas de tags. Como eles nunca trocavam de roupa, as tags nunca desbotavam. E eles estavam sempre perambulando pelas ruas. Era ótima publicidade, uma ideia incrível, e sempre dou risada quando lembro disso.
Me lembro de ir ao famoso apartamento do Dash na Avenue C. As paredes eram todas cobertas: tinham máscaras do Saddam Hussein, revistas pornôs, armas, capas do New York Post… A mulher dele na época, a Agathe, estava sempre cuidando da gente, principalmente dele. Ele precisava mesmo de muita atenção. Passei um tempão fotografando a relação dos dois. Foi o primeiro casal que me deixou tirar fotos enquanto faziam amor. Tinham um coelho de estimação, o Gary, em homenagem ao Cinik, um grafiteiro famoso, e um periquito que chamava Sargento Massacre. Quando o Dash ficava bêbado, ele fazia declarações de amor pros amigos. E não dava pra fazer ele parar de cantar músicas dos Stones.
Ele foi uma das minhas primeiras inspirações. Ele incorporava tudo o que eu queria fotografar e tudo o que eu sempre quis ser: irresponsável, inconsequente, livre, rico. Éramos só uns moleques malucos, indo em bares quase toda noite. Acho que nunca nos víamos durante o dia. Tipo vampiros. Passávamos muito tempo cheirando nos banheiros do The Cok (quando ainda era na Avenue A) e do The Hole (quando ainda era na Second Avenue). Era nosso segredinho, e isso era o máximo. Provavelmente já estive no banheiro de todos os bares da 14th Street pra baixo com o cara. A gente cheirava nos assentos das privadas, ou um no pulso do outro, e quando acordávamos de manhã as chaves dele estavam no meu bolso e as minhas no dele.
Foram tantas as histórias com o Dash que eu nem consigo me lembrar de todas. Dirigindo nas ruas de Milão a não sei quantos quilômetros por hora, bombando I Did It My Way dentro de uma van branca. Vestindo ternos rosa da Agnès b. na minha primeira exposição de arte em Los Angeles. Quando alguém dormia, Dash fazia questão de desenhar um monte de pintos na pessoa. A gente tentava acabar com todas as drogas antes do dia amanhecer. Senão, inventávamos novos métodos de cobrir as janelas com toalhas, lençóis e jornais, para que a noite durasse para sempre. E banheiro após banheiro após banheiro. Por que sempre me lembro dos banheiros?
Me lembro quando Bruce LaBruce vinha visitar a gente, ficávamos pilhados porque sabíamos que ele ia meter a gente em roubada. Uma vez, o Dash pôs fogo numas árvores de Natal no meio da Tenth Street. As chamas tinham uns 10 metros de altura. O Jack Walls ficou tão puto que falou para o Dash que a polícia estava atrás dele e o Dash passou um mês no Texas até o Jack confessar que ele não tinha chamado a polícia.
Lembro de uma noite em Chinatown quando ele subiu quatro andares pela saída externa de incêndio de um prédio para afanar uma blusa com uma estampa de chita pendurada em um varal amarrado entre dois prédios. Ele andava de bicicleta por aí vestindo aquela camiseta, enchendo a cara, até o dia que se espatifou num carro estacionado.
Lembrando de tempos mais recentes, vem na mente o estúdio dele na Bowery. Pedaços de jornal cobrindo o piso, crânios humanos e trabalhos em andamento pendurados por todo lado. Uma zona, mas ele sabia onde as coisas estavam. Você tinha que tomar cuidado para não pisar na porra que estava secando misturada com purpurina em cima da página de um jornal, por exemplo. Ele odiava telefones, internet e até campainhas. Ele adorava armas, assassinos seriais e as câmeras Polaroid Spectra antigas.
Heroína, ah heroína, ah heroína. Tirou a vida de tantos grandes artistas. Levou a vida de tantos amigos meus. Não sei se não deveria escrever sobre drogas quando um amigo morre de overdose, mas essas são todas as minhas lembranças do Dash. Memórias induzidas de drogas e álcool. Sempre tinha uma garrafa de Jack, um papelote e algumas cervejas. E muitos banheiros. Nossa amizade era isso. Nossa vida era assim. Aventuras com drogas. E foi o que finalmente matou ele.
Depois de um tempo, decidi parar com as drogas, mas vários amigos meus continuaram com força total. Eu entendo, nas minhas melhores lembranças eu estava louco. Éramos um bando de moleques malucos. A gente se divertia. Dash, Dan Colen e eu éramos Os Três Patetas. Tocávamos o terror e registrávamos tudo.
A última vez que eu vi o Dash nem vi ele direito. Foi no fim de maio, logo antes de eu ir viajar. Passei o dia na casa de campo do Jack Wall brincando com a filha do Dash, a Secret. Ele ficou no quarto o dia inteiro.
Uma das minhas coisas favoritas no Dash era a mão dele, que sempre se mexia involuntariamente. Ele ficava sentado lá, fumando cigarro, e de repente escrevia sua tag no ar, sem nem se dar conta . Eu só sorria, vendo a fumaça formar as letras S A C E. É assim que sempre vou me lembrar dele.
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