Morra Meu Amor

Texto e fotos por Sara Garcia Andersson & Patrick Glen

Um túmulo violado em um vilarejo perto de Xianyang, na província de Shaanxi.


Lá dentro havia um odor distinto. Era como um açougue em um dia quente misturado com terra e o inevitável toque que a China parece colocar em tudo. 

A abertura da cova era relativamente grande, o que facilitava a retirada de cadáveres. Também tinham outras covas que haviam sido cavadas, deixando buracos de mais de dois metros de profundidade. Nem todas tinham sido roubadas. Algumas estavam intactas, com incensos queimados espalhados ao seu redor. 

Por que estávamos bisbilhotando covas no Norte da China? Bom, estávamos procurando evidências de roubo de corpos porque ouvimos rumores de comércio de cadáveres no mercado negro para atender à demanda da tradição chinesa de “casamentos fantasmas”, que são casamentos arranjados para os falecidos. 

A vida após a morte está ricamente inserida na imaginação chinesa, e uma vida familiar tradicional continua sendo importante mesmo após a morte. A ideia chinesa do além é muito mais presente do que outros conceitos como paraíso e danação. Assim, encontrar um cônjuge para os mortos solteiros é fundamental. 

Essa tradição era comum até os tempos da dinastia Han—às vezes os imperadores eram enterrados com esposas e concubinas vivas—e, apesar de terem sido abolidas durante a boa e velha Revolução Cultural de Mao, hoje está havendo um revival de casamentos fantasmas. Achamos o conceito romântico, então partimos da estação de trem Pequim Oeste para a província de Shaanxi, onde, supostamente, cadáveres solitários estavam sendo roubados.

O trem estava oito horas atrasado por causa de uma enchente que tomou boa parte da China durante nossa estada. A bordo co-nhecemos alguns jovens chineses, então tentamos direcionar a conversa para os casamentos fantasmas. Um deles, que se apresentou como Marlboro (como seus cigar-ros preferidos), disse que já tinha ouvido falar do costume, mas insistiu que já não acontecia há 200 anos. Com suas roupas da NBA e inglês americano forçado, eles representavam para nós os novos burgueses da China—pouco identificados com a massa e inclinados a prestar pouca atenção às práticas tradicionais. A ignorância de Marlboro foi esclarecida quando estávamos saltando para o interior de covas abertas como góticos hiperativos.

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Do lado de fora do velório do mineiro morto.


Pela quantia equivalente a 25 reais, contratamos um táxi para o dia inteiro. O motorista, chamado Ma, concordou alegremente em nos levar a um cemitério. “Quando vocês virem, nunca mais esquecerão”, nos disse. Ou algo se perdeu na tradução, ou ele estava fazendo uma tentativa jocosa de nos manter na rota turística. Após uma corrida de uma hora, chegamos ao museu sancionado pelo estado, onde se encontrava a tumba de um imperador da dinastia Han. Foi só quando deixamos a educação de lado e exigimos ser levados a um “cemitério camponês” que Ma relutantemente nos levou para os arredores da sua cidade natal. 

Fomos parar no cemitério de uma pequena cidade industrial chamada Xi’anyuang. “Vocês têm dez minutos”, disse Ma, que permaneceu no banco do motorista. O cemitério ficava em uma colina, as lápides trincadas estavam rodeadas por mato. Ma nos disse que estava abandonado, mas logo de cara vimos inscrições nas lápides de 2009. Pressionados pelo tempo, saímos correndo à procura de sinais de roubo de corpos, o que Sara logo encontrou ao quase cair dentro de uma cova sordidamente exumada. O corpo que esteve lá tinha sido substituído por arbustos e espinheiros. Contamos oito covas abertas no total, que pareciam ter sido abertas recentemente. Era óbvio que quem quer que tivesse feito aquilo estava com pressa, uma vez que a tarefa não tinha sido executada com delicadeza. Antes que pudéssemos explorar mais, Ma buzinou e nos chamou de volta. Ele estava ansioso e resoluto de que tínhamos de ir embora imediatamente. Mais tarde, descobrimos que dois homens tinham sido pegos roubando túmulos lá em 2006, com a intenção de fornecer noivas e noivos para casamentos fantasmas. 

Até esse ponto, Ma tinha sido vago sobre casamentos fantasmas, mas depois que o subornamos com cigarros, ele finalmente falou: “Se não há corpos frescos, eles os exumam”. Perguntamos quem eram “eles”, e ele disse que era a máfia chinesa, que fazia visitas regulares, roubando corpos de madrugada para evitar a polícia. Ele não queria irritar a máfia e estava extremamente desconfortável na estrada do cemitério, que podia ser vista das casas abaixo. Ainda assim, de certa forma, ele era solidário ao trabalho deles.

“é um bom negócio, bom dinheiro, eles ganham 30 mil yuan [aproximadamente 7.500 reais] por corpo.” Mas, acrescentou, os casamentos fantasmas foram banidos em 2007 e o roubo de corpos diminuiu desde então. Ele parecia achar que isso era uma boa coisa e disse que achava que desenterrar corpos era “nojento”. 

Coveiros no Distrito Químico da Mina Número 4, perto de Datong, na província de Shaanxi. .


Então, com um quê de prazer macabro nos olhos, ele nos contou que um fazendeiro da província de Shaanxi foi acusado de matar mulheres para fornecer noivas para casamentos fantasmas. Sequestrar e traficar mulheres jovens para serem noivas não é inédito na China. No entanto, esse fazendeiro descobriu que podia ganhar cinco vezes mais se as noivas estivessem mortas. Enquanto quebrávamos a cabeça para entender por quê, Ma nos disse para irmos para Shaanxi, no Norte, para que descobríssemos por conta própria. E foi exatamente isso que fizemos. 

Dois dias depois chegamos a Datong, a capital da mineração de carvão do Norte da China. Perto do planalto Loess, Datong está cercada de montanhas irregulares, mas no geral é plana e tomada por um trânsito infernal. A cidade é coberta por uma camada de poluição amarelada e sufocada por partículas de poeira de carvão suspensas no ar. Ficamos em dúvida se encontraríamos casamentos fantasmas nos blocos de concreto modernistas e minas de carvão, mas parecia que o perigo e a anomia urbana criavam um ambiente proprício para tradições como essas. A cada ano a cidade crescia por conta das milhões e milhões de pessoas que iam trabalhar nas minas de carvão, o que dificultava, entre outras coisas, o fornecimento de água encanada constante.

“Conheço um especialista em Taoismo”, disse nosso guia Liu entre goles de Coca-Cola. “Ele é o Mestre do Luto.” E então chamou seu amigo Fuguo, um motorista de táxi e personalidade local, que, segundo ele, nos levaria ao encontro do Mestre. Liu foi vago em sua descrição do local que nos levaria, mas, como até então tínhamos tido sorte com motoristas de táxi, ignoramos nossas preocupações e acabamos parando em uma aldeia chamada Mina de Carvão Número 4, uma cidade mineradora bem suja. 

Fuguo fez uma ligação e em pouco tempo estávamos sendo conduzidos para um beco—adiante de uma cabra—decorado com flores coloridas de papel. Lá, uma multidão se aglomerava em torno de três músicos em frente a um altar de decoração extravagante. Tratava-se de um velório do qual não havíamos sido convidados, o que gerou uma discussão entre os presentes, nos deixando extremamente desconfortáveis. Mas uma oferta de cigarros logo acalmou os ânimos e fomos convidados a participar da cerimônia que estava sendo realizada pelo próprio Mestre do Luto. Liu sussurrou que o Mestre ainda tinha de encontrar uma noiva para o jovem que havia sido morto num acidente em uma mina, e então no dia seguinte o minerador morto seria colocado em um túmulo provisório até que um par adequado fosse encontrado. 

Abriram espaço e nos sentamos. Os músicos iniciaram uma cacofonia lúgubre de lamentos fúnebres conduzidos pelo som de um violino chinês de duas cordas. No altar, havia uma refeição ornada, cercada por oferendas—CDs, cigarros, álcool e até um Mercedes de papel. Era a versão moderna das oferendas enterradas nas tumbas imperiais. Hoje em dia, é possível encontrar nas prateleiras de lojas presentes de papel que vão de utensílios de cozinha até acessórios da Gucci. Esses produtos são cremados ou enter-rados para serem usados na vida após a morte. O irmão do morto ateou fogo num maço de dinheiro. Para evitar o constrangimento, Liu nos explicou que era dinheiro de papel cunhado pelo fictício Banco do Inferno e disse: “Se você for para o inferno, ou para o céu, precisa de dinheiro para subornar o Imperador—assim como em vida”. 

Ji, que fabrica fósforos e fornece cigarros cáusticos.


Perguntamos ao nosso guia se poderíamos conversar mais com o Mestre, um sujeito com cara de bravo de porte atlético com uma pele amarronzada. Ele concordou em nos encontrar após o velório e nos deu as coordenadas para chegar a uma rua onde teria uma reunião de negócios e pediu que o esperássemos lá. 

Voltamos para o nosso carro, andamos um pouco e Liu anunciou animadamente: “Vocês acabaram de chegar à Rua da Morte”. Todas as lojas vendiam coisas como flores de papel, caixões ou lápides. “Aqui vão te ajudar a encontrar um cadáver para o seu casamento fantasma.” Ji , o dono de uma das lojas nos disse: “Quando alguém vem à minha loja, anoto os detalhes do morto e então, se necessário, tento encontrar um par. Tenho essa loja há 22 anos, é um bom negócio”. Ele nos contou que tinha o corpo de uma mulher de 33 anos recém-falecida no necrotério aguardando um par adequado. Ele esperava ganhar cerca de 30 mil yuans com ela. 

A política de um filho por família da China torna o preço das noivas alto, ele disse, e então gesticulou para os vendedores do outro lado da rua, que riram enquanto ele explicou do que estávamos falando. Eles acenderam cigarros e vieram participar da conversa. Percebemos que estávamos em um cartel de alcoviteiros especializados em defuntos. Eles nos garantiram que não ga-nhavam muito com suas negociações, mas uma família satisfeita oferece uma pequena amostra de sua gratidão. De que outra forma as cento e tantas lojas se manteriam em uma única rua? Quanto mais pensávamos em tudo, mais intrigados ficávamos, e então o Mestre finalmente nos ligou. Ele não queria mais nos encontrar na Rua da Morte. Em vez disso, nos convidou para fumar cigarros e tomar chá em sua casa. Então fomos de carro até sua aldeia. 

Coveiros no Distrito Químico da Mina Número 4, perto de Datong, na província de Shaanxi.


Conforme entramos em sua casa modesta, ele apontou para sua cama, desabotoou a camisa e ligou um ventilador de teto. Ele se desculpou por seu cansaço—era o dia mais úmido de seus 29 anos como diretor de funerais—e explicou que tinha levantado antes do sol nascer para cuidar do mineiro morto. Perguntamos se haveria um casamento fantasma. “Claro”, ele soltou com uma arrogância irônica. “Ele tinha 30 anos e não era casado. Os pais dele não podem enterrá-lo no jazigo da família até que ele tenha encontrado uma esposa [morta], então, nesse meio tempo, o corpo é colocado em uma cripta. Faremos isso amanhã.”

“Às vezes, algumas pessoas chegam a ficar na cripta por dez, 20 anos. É importante encontrar um bom cônjuge, e nem sempre é fácil”, ele disse. No Taoismo, explicou, existem diversos critérios que contribuem para achar o par ideal. Isso inclui a compatibilidade astrológica de acordo com o I’Ching e também idade e causa mortis. A morte por uma doença é ideal, ao passo que morte acidental e suicídio carregam estigmas e trazem azar.

Existem muitos benefícios em um casamento fantasma. A família da noiva geralmente fica em uma boa posição de negociação. Famílias mais pobres podem conseguir um dote ou talvez até entrar para uma família de posição social mais alta. Mas a maioria das famílias organiza casamentos fantasmas por obrigação em relação ao parente morto para garantir uma existência pacífica após a morte. 

A cerimônia de casamento é realizada como outra qualquer, com exceção da questão de que os noivos não são unidos por amor ou luxúria, mas por rigor mortis. Depois que o casal é colocado na sepultura da família do noivo, os novos parentes trocam presentes e dinheiro, e pagam ao mestre e alcoviteiro sua parte. 

O mercado e as inevitáveis transações monetárias tornam difícil saber se os casamentos fantasmas são uma renovação das antigas tradições ou mais uma manifestação distorcida da China moderna. Ao perceber nosso olhar de desaprovação em relação ao aspecto financeiro, o mestre olhou para nós e disse sério: “Reconforta a família e ajuda a fazer as pazes com a morte de um filho”.

Acendendo outro cigarro, ele franziu a testa e gesticulou na direção de um monte de “dinheiro do inferno” empilhado no chão e suspirou. “Todo mundo precisa ganhar a vida.”

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