Sangue de Osasco



Os livreiros balançavam a cabeça antes que André Vianco tivesse tempo de se explicar. “A gente não compra livro de autor independente”, diziam para o escritor assim que ele entrava na livraria carregando seu livro de estreia, Os Sete, embaixo do braço, feito um mascate de si mesmo, nos primeiros meses do ano 2000. 

Se conhecessem a história de André Vianco, a atitude dos livreiros seria diferente: eles provavelmente apagariam as luzes da livraria e deixariam as portas trancadas até que ele fosse embora. O que poderiam esperar de um ex-entregador de pizza, sem diploma universitário, que havia acabado de perder o emprego de atendente de telemarketing e que, mesmo desempregado e morando com a mulher e a filha de dois anos no fundo da casa dos pais, decidira torrar os R$ 8 mil da indenização trabalhista na impressão de mil exemplares de um romance escrito em três meses? O que esperar de Os Sete, um romance sobre vampiros portugueses com superpoderes à la X-Men tocando o terror em terras brasileiras? 

Além do mais, Vianco era de Osasco, cidade da Grande São Paulo chata como qualquer polo industrial, sem outro atrativo além da proximidade com as rodovias Castelo Branco, Raposo Tavares, Anhanguera e o Rodoanel (daí a piada que compara Osasco a um 69: “A posição é boa, mas a vista é um cu”). Para piorar, o cara, nascido André Silva, gostava de Osasco a ponto de retirar seu pseudônimo de uma de suas ruas da cidade, Primitiva Vianco, e ainda fazia questão de ambientar ali parte de suas histórias. Dava para acreditar que fãs de horror e fantasia fascinados com a Transilvânia de Bram Stoker, o Maine de Stephen King ou a New Orleans pré-Katrina de Anne Rice, aceitariam vampiros transitando por… Osasco? 

Com jeitinho, Vianco se aproximava dos livreiros e explicava que pelo menos sua obra não era um livro de poesia (esses repelentes de leitores), mas um romance, depois mostrava a capa produzida por um amigo de infância designer, Christian Pinkovai, e o anúncio da contracapa feito para lhe dar ares de escritor experiente: “Do mesmo autor deO Senhor da Chuva” (livro que nunca havia sido publicado!). Por fim, sem muito entusiasmo, os livreiros aceitavam receber o livro em consignação e, após a insistência de Vianco, concordavam também em colocar um exemplar exposto em algum canto menos nobre da vitrine. 

Após duas semanas peregrinando de livraria em livraria, Vianco conseguiu ser aceito em uns 20 pontos de venda da Grande São Paulo. Agora, era esperar. Desempregado, com a conta bancária zerada, Vianco passava os dias diante do telefone mudo, enquanto sua esposa, Marisa Samogin, segurava as pontas da casa com o emprego de recepcionista. Uma semana se passou. Nada. Duas semanas… “Quando entrei na terceira semana, eu já estava escolhendo de que ponte ia pular”, lembra Vianco. Mas a manhã de segunda-feira trouxe as ligações das primeiras livrarias dizendo que seus exemplares de Os Sete haviam se esgotado. Semanas depois, Vianco recebeu uma proposta de uma grande editora que aceitava publicar Os Sete se o autor o cortasse pela metade. “Sinto muito, mas o livro tem esse tamanho; se escrever um menor eu trago aqui”, André disse para a “major”, antes de se arriscar pela recém-criada Editora Novo Século, que pelo menos topava publicar o livro como ele havia escrito. Publicada em 2001, a primeira edição profissional de Os Sete esgotou os três mil exemplares em um mês. 

Vianco não parou mais de escrever: em oito anos de carreira, publicou mais de 4.200 páginas de ficção. “Não sei se escrevo bem, mas escrevo pra caramba”, costuma dizer. Juntos, os 12 romances e as duas revistas de histórias em quadrinhos escritas por Vianco venderam cerca de 288 mil exemplares, superando a maioria dos criadores de monstros importados. Ele bate Stephen King e o queridinho da crítica, Clive Barker. Seus livros só perdem mesmo para quatro livros da série “Crepúsculo”, de Stephenie Meyer, e seus vampiros sem caninos que viram purpurina à luz do sol. 

Aos 34 anos, o ex-entregador de pizza é hoje um personagem mais fantástico do que qualquer uma das criaturas fantásticas de seus livros: desde 2001, faz parte do ultrasseleto clube de escritores brasileiros que conseguem viver exclusivamente de escrever. E de escrever literatura, sem fazer bicos com artigos em jornais, roteiros para TV ou teses acadêmicas. 

Neste ano, Vianco comemorou um feito ainda mais improvável: viu sua obra transformada em parque temático. Foram R$ 2,5 milhões em investimentos gastos pelo Playcenter para produzir a 23ª edição do evento Noites do Terror, inteiramente baseada nos livros de Vianco. O passeio, repleto de sustos, caninos de plástico e vísceras falsas, começa com uma encenação da Noite Maldita, descrita nos livros Bento e Vampiro-Rei 1 e 2, em que metade dos seres humanos se transforma em criaturas da noite após adormecer. Caminhando entre cenários de uma São Paulo devastada em meio a uma guerra entre humanos e vampiros, os visitantes vão encontrar versões em carne, osso e lentes de contato coloridas de outros personagens de Vianco. Os vampiros do rio D’ouro, que inauguraram a carreira do escritor com Os Sete, conversam com o público junto à réplica em tamanho real de uma caravela portuguesa. Há até um cemitério que reconstrói uma das passagens do último livro de Vianco, O Caminho do Poço das Lágrimas. Publicado no final do ano passado, o livro é um conto infantil soturno, baseado numa história que Vianco costumava contar para suas três filhas na hora de dormir. “Inventei essa história para explicar a morte às minhas filhas. Para elas verem a morte como algo natural”, conta Vianco.

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O evento Noites do Terror consome 2,5 quilômetros de tecidos em trajes para 160 atores, 90 próteses dentárias, 130 pares de lentes de contato e 150 quilos de maquiagem, entre vários outros adereços, tudo isso para recriar histórias que Vianco imaginou no quarto de sua casa em Osasco. “Não conheço outra obra de um autor nacional de fantasia e terror com essa dimensão”, afirma a gerente de marketing do Playcenter, Michelle Costa, organizadora do evento e fã de carteirinha dos livros de Vianco. Segundo ela, não foi difícil transportar os sonhos de Vianco para a realidade, já que todos os personagens e cenários são descritos com muitos detalhes. “O texto menciona até a cor da cueca de um personagem”, exemplifica. (Antes de Vianco, o único escritor que teve sua obra transformada em atração do Playcenter foi Dante Alighieri, com A Divina Comédia.) Para Michelle, o segredo do sucesso de Vianco está na maneira como ele traz seus monstros para a realidade dos leitores brasileiros.

“Não gosto dos autores de horror brasileiros que escrevem histórias em Manhattan ou Londres com personagens chamados Brian e David. Eu prefiro fazer histórias em que os vampiros vão para Osasco”, define Vianco. E não é que os leitores curtem? Em seus livros, é fácil encontrar referências aos repórteres do Jornal Nacional, ao Maníaco do Parque e ao ET de Varginha (na verdade, um vampiro). “O que eu acho do caralho no trampo do André é que os vampiros dele estão entre nós, são vampiros brasileiros. São as cidades que a gente conhece, acontecem coisas nas ruas em que você transita. Tem cenas dos livros em que os vampiros destroem o Shopping Eldorado, congelam o rio Pinheiros, perfuram o fundo do lago do Ibirapuera. O Vianco é um demente”, opina um fã ilustre de Vianco, o roqueiro Paulão de Carvalho, vocalista da banda Velhas Virgens, fascinado por vampiros desde criança, e que até hoje busca resposta para uma questão existencial: se vampiro tem sangue coagulado, como faz para ficar de pau duro? “Isso o Vianco nunca respondeu.”

Os fãs de Vianco formam uma comunidade que lembra mais os seguidores de uma banda de rock do que os típicos ratos de livraria. É uma gente que discute os romances do autor como se falasse de futebol ou de novelas, que chora em pé no ônibus com um de seus títulos nas mãos, leitores que economizam durante semanas para comprar romances de 500 páginas que são devorados em dois dias e depois relidos três, quatro, seis vezes. Apesar (ou, quem sabe, por causa) do sucesso de vendas, Vianco não é convidado para a Flip e raramente aparece nos suplementos culturais dos grandes veículos de comunicação. Mesmo hoje, o boca-a-boca dos leitores continua a ser o seu principal instrumento de marketing. Vianco criou sua própria mídia, usando sites de relacionamento, Twitter e vídeos no YouTube como forma de chegar aos leitores. Recebe em média quase uma centena de e-mails diários e se esforça para responder à maioria deles. Para lotar suas noites de autógrafos, o escritor só precisa enviar um convite ao seu mailing e anunciá-las via Twitter e Orkut. Quem tem leitores como os de Vianco não precisa da imprensa: são eles que falam do autor para todos que conhecem, emprestam seus livros para todos os amigos e dão pitis em bibliotecas que não têm os títulos do mestre. Para se aproximar ainda mais dos leitores, Vianco teve a ideia de ilustrar as capas dos seus últimos livros com as fotos dos fãs—todos vestindo preto e exibindo os caninos de plástico.

“Não vou ter a humildade forçada de negar: é do caralho o que realizei”, reconhece Vianco, para logo em seguida dizer que pretende fazer ainda muito mais. Os planos de dominação mundial de Vianco incluem levar seus livros para outros países e para a tela grande. Ele já dirigiu dois curtas: um bem artesanal, a versão gótica do conto A Flor, de Carlos Drummond de Andrade, história de uma menina perseguida por um morto após roubar a flor de um túmulo, e um outro mais elaborado: a adaptação de um de seus próprios contos, A Última Partida, em fase de finalização, sobre pai e filho que se reconciliam após a morte. Todos feitos de maneira independente e sem grana, bem ao estilo André Vianco de meter as caras: sua esposa e outros amigos cuidam da parte técnica, atores iniciantes selecionados via Orkut aceitam trabalhar de graça para incrementar o currículo, e o próprio Vianco, além de escrever e dirigir, ainda faz uma ponta no papel de frentista. “Fiz do meu jeito porque não tive paciência para a burocracia das leis de incentivo”, confessa. 

“Eu tenho prontos argumentos para 70 histórias, que podem virar romances, contos, peças de teatro… Mesmo que eu consiga escrever uma por ano, não vou viver o bastante para poder colocar no papel todas as minhas ideias”, comenta, recostado no interior de um sobrado simples que ele comprou com o dinheiro de seus livros no Jardim Osasco, um bairro de classe média baixa com crianças correndo nas ruas e velhas varrendo a calçada. Vianco está em sua “caverna”: um escritório apertado e sem janelas, de paredes nuas, mobiliado apenas com uma cadeira e uma mesa de computador—a incubadora dos vampiros, lobisomens, fantasmas, curupiras e outras criaturas que povoam sua literatura. 

Olhando assim para ele, não parece um criador de monstros, seja lá como um deles se pareça. É um cara tranquilo e bem-humorado, a cabeça redonda e careca, barba preta, ombros de boxeador e barriga de escritor, tipo convencional de jeans e camiseta, que nem de longe faz lembrar os sobretudos ou os cabelos coloridos de alguns fãs de horror. Pirotecnias e tietagens não combinam com Vianco, que já recusou uma oferta de cachê para aparecer vestido de vampiro no evento promocional de empresa. “Não é minha cara. Eu sou um escritor, não um vampiro”, diz.

Vianco escreve metódica e compulsivamente todas as manhãs. É quase uma necessidade fisiológica, capaz de provocar crises de abstinência. “Se não escrevo fico doente, irritado”, conta. Entre um parágrafo e outro, por vezes ele alterna suas vítimas. Praticante de boxe amador, deixa de espancar os teclados por alguns minutos, calça as luvas vermelhas e passa a socar um saco de areia pendurado ao lado da “viancocaverna”. Sua literatura é feita com golpes de orações curtas e diretas, um estilo simples que parece feito na medida para atrair o público e repelir a crítica. Em jogo, um liquidificador de influências que mistura autores como Stephen King, J. J. Benítez, Ignácio de Loyola Brandão e o Victor Hugo de Os Miseráveis com histórias em quadrinhos de Neil Gaiman, Moebius e Will Eisner, além de filmes, games e séries de TV. Vianco não quer produzir grandes obras de arte nem vender ao leitor segredos sobre como dominar o universo a partir de sua lenda pessoal; seu negócio é a diversão. “Não me importo com a técnica, a norma culta. Eu trabalho para a história ficar fluida e mexer com o sentimento de quem lê. Eu sei lidar com a ação, sei a vibração que quero colocar nos personagens e a emoção que vai despertar no leitor, nem que seja fugaz. Enquanto ele estiver lendo, está sob meu controle”, diz. 


O André pediu para você visitar o site dele www.andrevianco.net e o seguir no www.twitter.com/andrevianco

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